Friday, November 29, 2002

Você é fã do Blitz? A banda liderada pelo ator global Evandro Mesquita acaba de fazer 20 anos e recebe como presente a reedição de três discos do grupo. A EMI é a gravadora que aposta no sucesso dos anos 80 e lança os discos do Blitz em três edições separadas. O álbum As Aventuras da Blitz, já havia saído em CD faz tempo, mas não ficou muito tempo em catálogo, apesar de conter os sucessos "Você não soube me amar", "Volta ao mundo" e "Geme-Geme".
No site Central da Música você confere uma coluna sobre esses vinte anos da banda que acabou por marcar o pop brasileiro. Confira.

Miucha Lopes
Para quem curte manguebeat e maracatu, uma boa pedida é o novo disco da banda pernambucana Cordel do Fogo Encantado. Saídos da pequena cidade de Arco Verde, no sertão de Pernambucano, o grupo teve excelente projeção com o lançamento do primeiro disco, chegando a tocar no Free Jazz Festival. Agora, eles lançam "O Palhaço do Circo Sem Futuro" e mostram para os paulistanos num show do Sesc Pompéia o resultado de suas andanças pelo mundo. Lirinha, o vocalista da banda, nunca tinha saído de sua cidade atá os 22 anos e por isso, o primeiro disco é um registro claro dos sons tradicionais da região. Hoje, aos 26 anos, o vocalista revela que o grupo está numa nova fase. Eles começaram a compor o segundo trabalho quando saíram de Arco Verde e, mesmo seguindo os elementos tradicionais, inserem aspectos do teatro dentro do novo disco.

O show acontece dia 29 e 30 de novembro, no Sesc Pompéia. para saber mais sobre o grupo e o novo trabalho, leia a matéria publicada na Folha Online .

Miucha Lopes
É interessante ver como a arte evolui.

Uma mostra realizada pela Faap prova isso. Em diversas obras o vídeo é utilizado, o que nos demonstra que os recursos audio-visuais também estão sendo utilizados para a produção artística.

Cada artista utiliza as ferramentas do seu tempo para expressar a realidade em que vive. Esse blog é outro exemplo disso...

Fernando Exman
Sabe quando a mesma informação tem um lado positivo e outro negativo? Uma reportagem que eu li ontem no Estadão me deu essa sensação.

A moda do lançamento de caixas com CDs raros e antigos nos traz à luz um grande problema da nossa indústria cultural. As gravadoras não estão investindo em novos artistas porque não querem se arriscar. Portanto, repetem as receitas que já foram sucesso porque têm a certeza do lucro.

Nos resta o contentamento de ter a oportunidade de ouvir músicas que tínhamos curiosidade, mas nos faltava o acesso (essa é a boa notícia). O perfeito seria ter essas valiosas caixas e também a suspresa de novos talentos.

Esperemos pacientemente a mudança dessa situação...

Fernando Exman
Amantes do cinema nacional, atenção!!!

Todos que gostam do cinema brasileiro deveriam ler essa notícia do Estadão de hoje. Além de dar uma dica preciosa aos cinéfilos-patriotas, também oferece ao leitor um panorama do cinema nacional produzido nesse ano que se finda.

A matéria consegue, na minha opinião, prestar um ótimo serviço, pois divulga um evento importante ao leitor desse segmento (nós). Além disso, aprofunda-se e faz uma pequena análise dos destaques dessa amostra.

Fernando Exman
Dori Caymi ressurge das cinzas. Bom sinal em tempos de mediocridade no cenário musical brasileiro.

Como de costume, Dori não mede papas na língua. Está fazendo show aqui em São Paulo neste fim de semana para lançar seu novo CD. Mas, sinceramente, o que mais me chamou a atenção foram suas declarações nessa reportagem do Estadão.

Criticar artistas da estirpe de Sandy & Júnior, além de justo, é normal. Tantos outros já criticaram, como Tom Zé e Rita Lee. E ainda muitos irão criticar. O que me estranha é sua posição quanto ao Zeca Baleiro. Por que será que Dori não gosta do Zeca?

Será que é porque o jovem artista aceita receber diversas influências e é extravagante? Vai ver que é por esse mesmo motivo que ele não gostava dos músicos brasileiros contemporâneos à sua época. Aliás, já que ele se reconciliou com os outros e todas as mágoas do passado já foram superadas, ele poderia voltar a puxar as orelhas de Gilberto Gil e Milton Nascimento. Eles não só elogiaram a atuação da dupla pop de irmãos, como os convidaram para uma participação especial no disco que fizeram juntos. A música chama Duas sanfonas .

Observação: Não vou colocar nenhum link para você ver quanto custa esses CDs, caro leitor, porque não recebi nenhum patrocínio dos sites de venda. O que posso lhe dizer é que o álbum dos dois é o Gil & Mílton. As informações sobre o disco do Dori podem ser encontradas na matéria já linkada.

Fernando Exman

Thursday, November 28, 2002

Morre o Scream Yell. Quem? Pois é, essa pergunta que acabou assassinando um dos endereços mais interessantes da rede. O Scream Yell era um e-zine feito por alguns jornalistas descolados que falava, de maneira própria, das várias facetas da cultura pop. Porém, a falta de audiência (ou cliques) de suas páginas acabou por matar a idéia. É uma pena. Em poucos lugares podemos encontrar resenhas de discos, livros e filmes, críticas variadas, notícias sobre HQs e ensaios sobre assuntos variados reúnidos. A morte do Scream Yell me fez pensar que talvez seja impossível fazer neste país um jornalismo isento de influência dos interesses dos grandes estúdios, gravadoras, etc. É triste ver também que o público interessado em pessoas que quabram regras seja tão reduzido. Resta agora esperar que alguém continue o caminho traçado por eles. Alguém me ajuda?
Se você quiser conhecer o Scream Yell, seu conteúdo ainda está on line.

Bruno Ondei
Viúvos e viúvas do NO. Já está no ar o site No Mínimo, um pequeno oásis de boas idéias no deserto da web. O NO. sempre apresentou artigos, críticas e colunas que fugiam do lugar comum, e agora o No Mínimo procura preencher esse espaço. Ele herdou grande parte dos colunistas do finado site, como Arthur Dapieve, Marcos Sá Corrêa e Tutty Vasques, e aborda temas interessantes de maneira inusitada. É gratificante ver esse tipo de iniciativa, já que grande parte dos sites jornalísticos da Internet se preocupam apenas em reproduzir o ultrapassado conteúdo dos jornais diários, e propagar idéias nada inovadoras.

Bruno Ondei
Todo o jornalismo cultural está comprometido com gravadoras majors e bandas de fácil apelo popular? Quase. Ainda existem alguns (poucos) jornalistas que procuram mostrar o que acontece de realmente novo no mundinho da música pop. Um bom exemplo disso é a coluna de Lúcio Ribeiro no site Pensata, ligado à Folha de S. Paulo. Ribeiro procura mostrar que existe uma infinidade de bandas e cantores de grande qualidade por trás da programação que as rádios rock querem que os ouvintes engulam. Claro que existem problemas com sua coluna, como por exemplo a ânsia de encontrar a cada semana um novo Nirvana, que iria salvar o rock´n´roll. Mas, num país acostumado com relançamentos, regravações, reedições e acústicos MTV, a iniciativa de Ribeiro se destaca no meio jornalístico atual.

Bruno Ondei
O site Cliquemusic apresentou uma crítica ao disco "Tribalistas", de Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, no mínimo equivocada. Concordo que cada um tem seu gosto pessoal, e acho até possível que alguém goste deste disco. O problema é que a referida crítica peca pela contradição apresentada. Para o autor desta, o disco é despretencioso. Será? Lançado com intenso "oba-oba" pela imprensa, o "Tribalistas" chegou a ser comparado, como é dito nesta crítica, a uma reedição da Tropicália. Um especial sobre o disco foi apresentado na Rede Globo, e ganhou espaço considerável no Fantástico. Fantástico para mim é esse afã de elevar aos céus três artistas estremamente chatos, pretensiosos e que nada de novo acrescentam à cultura musical brasileira.
Veja crítica do Cliquemusic.
Bruno Ondei

Monday, November 25, 2002

Nação Zumbi e Sabotage. Um é o grupo pernambucano que divulga o manguebeat no Brasil e no Mundo através das fortes batidas do maracatu. O outro é um rapper da periferia de São Paulo que chegou ao cinema na trilha sonora dos filmes O Invasor e Estação Carandiru. Duas importantes ramificações da música brasileira que mostram a riqueza da cultura do país. Abaixo, segue entrevista com o Sabotage e com Nação Zumbi.
Sabotage – Do Canão para os cinemas
Por: Miucha Lopes

Não importa a cor ou posição social, quando se tem talento, uma cabeça aberta e é claro, muita humildade valem muito mais. Mauro Mateus é Sabotage, um rapper da periferia de São Paulo que se deu bem. Escolhido pelo cineasta Beto Brant, o músico foi fazer a trilha sonora de “O Invasor” e acabou por dar a alma ao filme com seu jeito “malandro” de ser. Ao lado de Paulo Milkos, Mariana Ximenes e Malu Mader, ele atuou e venceu três prêmios pelo Brasil.

O resultado foi tão positivo que o rapper foi convidado para fazer mais um longa metragem. Desta vez, “Estação Carandiru”, história baseada no livro homônimo de Dráuzio Varella. Histórias para contar não faltam a este rapper desembaraçado e explicativo. Aos 29 anos, criado sem os pais, ele prova que viver da música compensa. “Se você cantar uma canção, vai ver o mundo lá fora. Pessoas da favela tem vergonha. É uma ilha e não tem informação”.

Preocupado com o lado social, Sabotage aproveita sua história para passar transmitir uma mensagem boa para quem fica no mundo da favela. “Somos artistas da rua. A esperança de que o crime não compensa é nós”, revela. “Se for para nós ficarmos duros, vão ficar duros”. Confira.

Você é Mauro Mateus, conhecido como Sabotage. É verdade que seu apelido veio das muitas sabotagens que fez quando era pequeno?
Várias sabotagens. Já sabotei e continuo sabotando e o apelido ficou de 80 pra cá. O engraçado que começou isso em 80 e hoje, em 2002, tive que pagar para registrar meu apelido. Sabotagem, né?

A sua descoberta na música, e agora, no cinema, veio de que forma?
Descobri quando comecei ouvir rádio AM, de um radinho da minha mãe. Ouvia muito Cazuza, Pixinguinha, aquelas músicas, Chico Buarque... Muito louco.

E você pegou influência deles para compor suas músicas
Muitas. Tem influência total, raízes brasileiras. Falo de Tom Jobim, Elza Soares, da Ivonete, Ivone Lara. São raízes nossas, porque acho que o samba nasceu aqui e o hip hop nasceu lá fora.

Como veio a oportunidade de você fazer a trilha sonora do filme O Invador?
Foi quando fui cantar no Anhembi uma vez e a galera filmou e viu um fanático subir num barato enorme. Não era para ele ter subido ali, o segurança ficou chamando ele, mas falou que eu era o Sabotage e que tinha que tirar umas fotos minhas. A galera toda ficou berrando o meu nome lá. O cara levou esta fita para um diretor de cinema ver. Aí, fui parar lá, conheci a Mariana Ximenes, a Malu Mader, hoje minhas amigas. Mudei o dialeto deles todos.

E como foi o trabalho do personagem Anísio, interpretado pelo Paulo Miklos?
Foi muito bom. Por ser da periferia, o nosso jeito de falar é diferente. Nós temos um dialeto nosso. E ele fez isso. Foi incrível que o Paulo Miklos foi tão bem que ganhou prêmio como melhor ator. Ele já até foi convidado para fazer outro filme, como eu também fui convidado para fazer o Carandiru.

No filme Estação Carandiru, além de fazer a trilha sonora, você interpretou também. Já tinha interpretado antes?
Só no Invasor mesmo. E lá foi legal porque o diretor falou para todo mundo seguir o Sabotage. E o Anísio, que é o personagem do Paulo Miklos, prestava atenção em mim. Não sei como não senti vergonha.

Você esperava este resultado tão positivo?
Não. Pra mim, eu ia entrar com o rap e a galera ia aderir esta idéia nova de mostrar um mensagem positiva, que é a grande idéia do telão (cinema). E fomos para os festivais de cinema. Quando ganhamos em Brasília, fiquei desacordado, ganhei a melhor trilha. Surpreendeu bastante, pô, aquelas músicas que fazia lá em 81, foram elas que ganharam. A maioria das músicas do Anísio, foram tiradas para encarnar nele.

Seu disco chama RAP É O COMPROMISSO. Como é este compromisso?
Eu vim de um lugar chamado Canão, no meio do Brooklin, Chácara Flora, Granja Julieta e Indianópolis. Vivi do lado de quem teve muito. Na favela, a maioria é criado filho sem pai, eu mesmo fui criado sem pai. Quando perde a mãe cedo, como no meu caso também, você fica dentro de uma selva. Quem vai ensinar você é um Tarzan, sem fala, tudo homem primata. O rap é compromisso porque o rap tirou a gente dessa. Olha que legal, comecei a escrever música, mostrei pro Thaide, ele gravou, ganhou uma grana. Então, vi que podia viver de música.

Qual a mensagem que você quer passar para as outras pessoas?
Ah, meu, tem tantas. Para quem não tem: se for novo, vai estudar, entra numa escola estadual. Vai lá para estudar, não vai lá para ficar fumando cigarrinho e ficar mostrando etiquetinha, que isso não está com nada. Para quem tem: a cura de todos os seqüestros é a doação. Acho impossível um seqüestrador seqüestrar uma pessoa que faz doação, que ajuda, que faz creche, que compra um remédio.

Como é a relação rap/conscientização?
Somos artistas da periferia, artistas da rua. A esperança de que o crime não compensa é nós. Eles tudo falam que é legal, tem vontade de sair do morro, mas não podem. A gente sabe de coisas que você não acredita. Eu vou e páro para falar com as pessoas e fico mais comovido que a pessoa. Converso com adolescentes de 16, 17 anos coisas que eles não se abrem nem para o pai. Eles se espelham na nossa música. É uma questão de dançar e de se conscientizar. Porque quem escuta, num baile está dançando.

A música gera uma boa renda para sair da favela?
As pessoas me vem na televisão pensam que tenho dinheiro, mas é tudo roupa. Se for para nós ficarmos duros, vão ficar duros. Tenho medo de sair dali porque tem muita criançada que sou como o pai deles. Sei que eles vivem largados, tem pais que não liga mesmo. Chamo, converso, brinco com eles, e eles me escutam. Acho que a esperança deles sou eu. Peço para eles irem para a escola e não preciso pedir duas vezes, eles vão.

Você se diz uma rapper imperativo e explicativo. Por quê?
Eu olho tudo. Vivo neste mundo faz tempo. Quando perdi minha mãe, tive que raciocinar. Tive que escolher entre a droga, o crime ou a música. Só que tive que fazer algo rápido porque não tinha mais tempo. Por isso, o rap é compromisso.

É muito difícil conseguir crédito nas gravadoras?
Sou músico declarado pela galera. É muito complicado. Estivermos bem em curto espaço. Eu ganhei três trilhas sonoras. Dei uma idéia hiper para uma galera, a mesma coisa de dar um bilhete da megasena. O cara foi, ganhou. O Beto Brant, me ajudou muito, mas conclusão, ele falou: Sabota é isso cinema. Lá fora eu tinha ganhado uma puta grana. Ganhei e não ganhei. A favela tem um preconceito: o do rico com o pobre. Preto branco pobre se parece, mas preto e branco rico não. Por isso, a chave é a doação.

Como enxerga a mídia? Critica ou se apóia para divulgar seu trabalho?
Não ajuda a gente em nada. Me põe na televisão todo o dia, a criançada pensa que sou rico. A televisão engorda os olhos do pobre. É marca. Pensam que tenham confecção, mas tenho nada.

O que achou de estar aqui no Sobcontrole?
É legal, porque a primeira vez que vi o programa do Marcos Mion e vi ele fazendo umas paradas na rua, vi que ele é inteligente. Ele é rápido. Vi um comercial dele rápido e inteligente. Quando o empresário falou que a gente vinha para cá, achei muito legal, sou do tipo imperativo e explicativo e ele é rápido, joga uma piada bem metáfora. Não sei, não conheço ele e gosto de conhecer as pessoas de perto.

Nação Zumbi por Nação Zumbi

Por: Miucha Lopes

Isso sim é cultura brasileira. Através do som dos tambores, eles são o exemplo de atitude e de garra. “Acho que o desejo maior de qualquer banda é fazer com que seu som chegue o mais longe possível e em todo lugar”, revela o vocal Du Peixe. E assim o fizeram. Pioneiros no movimento manguebeat, eles fazem do maracatu uma cultura difundida no Brasil e no mundo.

“O mangue tem essa intenção: levar a cultura mundo a fora”, revela o guitarrista Lúcio Maia. O grupo acaba de lançar o quinto disco da banda, intitulado apenas Nação Zumbi. Na entrevista, um troca de idéias sobre o novo CD, o maracatu e o maguebeat e é claro, Chico Science. Confira.

Esse é o quinto disco da banda. Como definem este trabalho?
Du Peixe: É mais um estágio dentro do que a gente vem assimilando musicalmente. Em dez anos de banda, este é inclusive, um dos mais maduros. Fizemos em um tempo curtíssimo, entre composição e gravação. Levou um pouco mais de 3 meses.

Esse curto período prejudicou no conteúdo final do disco? Queriam mais tempo para finalizar o disco?
Du Peixe:Não... A gente fez uma pré-produção rápida em Recife e já tínhamos pensado em todo mundo para trabalhar na produção. Então, a gente já sabia que o pessoal ia dar conta do recado no período determinado.
Lúcio Maia: A gente também já trabalhou neste esquema de curto prazo antes. O Afrociberdelia foi neste mesmo esquema, teve um período para começar, terminar e compor. E vimos que na pressão funciona bem.

Como foi a saída da fase independente para o contrato com a Trama?
Lúcio Maia: Foi uma experiência. Acreditávamos muito nesta parada. Se a banda tem um poder de público e platéia, se puder trabalhar independente é melhor. A gente quis tentar meio que tomar as rédeas da história, ser donos do próprio disco... mas no Brasil ainda existe uma mentalidade meio comodista com o selo independente. Foi isso que fez a gente partir para uma gravadora maior. Mas, no caso da Trama, foi muito bem escolhido porque eles têm uma condução do perfil do artista lá dentro e eles levam isso muito a sério. Tem um trabalho para cada artista separado.

Como rolou a proposta com a Trama?
Du Peixe: O João Marcelo (um dos donos da Trama) já tinha se pronunciado no jornal dizendo que queria a gente no casting da Trama. Nós assinamos contrato sem nada registrado para mostrar, foi bem tranqüilo. Daí, com contrato assinado foi voltar para Recife e arregaçar as mangas e finalizar o trabalho.

Qual a lição que tiram desta fase independente?
Du Peixe: Que sem dinheiro você não pode fazer muita coisa.
Lúcio Maia: Ao mesmo tempo, acho que foi muito louvável. Até porque mantemos nosso pensamento independente. Sempre foi assim. Tentamos ir as vias de fato, fazer realmente independente. Mas, sempre fomos independente, seja na Sony ou em outro lugar. Trabalhamos do nosso jeito.

Tem uma música no novo CD que chama “Meu Maracatu pesa uma Tonelada”. Seria um desejo de fazer crescer o som dos tambores?
Du Peixe: Acho que o desejo maior de qualquer banda é fazer com que seu som chegue o mais longe possível e em todo lugar. O maracatu também como sendo a cultura do Nordeste, de Pernambuco. Hoje em dia já se pode dizer que o maracatu simboliza muito a cultura de Pernambuco. A intenção é furar o bloqueio mesmo.

Na época do primeiro manifesto do manguebeat, com o “Da Lama Ao Caos”, não existiam tantas bandas. Hoje, temos Otto, bastante conhecido, o Mundo Livre, o DJ Dolores, Orquestra de Santa Massa, entre outros. Como avaliam o crescimento do maracatu e do maguebeat?
Du Peixe: Isso é reflexo do grito inicial que foi o primeiro manifesto. Recife continua ainda com algumas dificuldades, sem muitos recursos ainda, mas está amadurecendo. Mesmo longe e distante das lentes da mídia daqui, todo mundo continua trabalhando para que as coisas se transformem.
Lúcio Maia: Já existe uma base fixa e tem muita gente já trabalhando para este mercado da música. Acho que isso é sem dúvida devido a parada do manifesto e as coisas que vieram na seqüência. Como a história da retomada da autoestima, de querer ter vontade de fazer alguma coisa, de não deixar a cidade estagnada.

Como enxergam o trabalho desses companheiros de vocês?
Lúcio Maia: O que é mais importante é que não existe uma unidade visível entre essas bandas. A gente, Otto, Mundo Livre e Cordel do Fogo Encantado, cada um tem um som, tem uma personalidade e vai buscando melhorar e cada vez se aprofundar mais. Acho isso o mais legal.

Como poderiam falar o que é o manguebeat para quem ainda não sabe?
Lúcio Maia: Começo dos anos 90, não se tinha nada em Recife, a não ser nós mesmos. Então, a idéia do manifesto foi se movimentar, levar diversão a sério, fazer alguma coisa para criar uma circulação que não existia. Além disso, melhorar a qualidade de vida, a idéia da parada foi uma auto-estima que a gente criou e veio de uma ...
Du Peixe: ...atitude. Se envolver com as próprias pernas, mudar a nossa maneira. Sem nenhuma aliança política. Feito o manifesto, começou a difundir este pensamento e as pessoas se voltaram mais para Recife também. Uma cidade tornada melhor, para se divertir, para se viver... Transformar o seu lugar. Na verdade, a palavra mangue é por conta da cidade (Recife) ser aterrada de mangues e também por ter muita diversidade e fertilidade. Você tentar tornar a sua cultura mais fértil e mais forte. E isso não fica restrito a só Recife, o mangue tem essa intenção: levar a cultura mundo a fora.

E essa idéia do manguebeat tem se difundido em outras regiões do Brasil?
Lúcio Maia: Eu acho que o Brasil tem focos de cenas por n lugares. Porto Alegre é muito forte, as bandas são bem unidas, o mercado lá melhorou um bocado pra eles. Na Bahia, tem uma cena de rock muito forte, em Belém, em Maceió. Todo lugar tem. O problema é que não é visível. Existe uma mentalidade muito hermética com relação a dar chance para outras pessoas, dar chance à cultura nova. Por isso que o Brasil fica sempre se repetindo, sempre vivendo de décadas anteriores. É o que está acontecendo agora. Não está havendo uma vontade de dar chance as coisas novas que possam melhorar nossa cultura. No início dos anos 90 abriu um leque, veio Chico Science e Nação Zumbi, Skank, Raimundos, Planet Hemp. Hoje em dia, esse pessoal voltou a ficar em segundo patamar por causa das bandas dos anos 80. Acho que tem bandas agora do século 21 que estão a fim de aparecer, bandas novas. Tem que deixar de ser bitolado.

Mas de quem seria a culpa? Da mídia?
Lúcio Maia: Mídia totalmente. O que estou falando não é do povo, mas dos veículos das paradas. Rádio, televisão, as próprias gravadoras, elas têm essa mentalidade de produtos efêmeros. Aquelas que são estouro no mercado e depois somem. É aquele velho assunto da teoria da conspiração, controle da massa.
Du Peixe: Tem uma frase boa do Fred Zero 4 que diz : “Não se espere nada do centro, se a periferia está morta.” Tem muita coisa acontecendo que vem do subúrbio, da cultura urbana, e muitas vezes é achatada e abafada. O hip hop, é um exemplo, está muito na periferia e está sempre envolvido em projetos sociais, mas tem pouca entrada na mídia.

O que mudou com a morte de Chico Science?
Du Peixe: Teve que dar um parada. Foi um choque muito grande, uma perda como se fosse da sua família, não foi fácil, foi como se tivesse perdido um irmão. Era um cara que estava ali, estava sempre articulando as coisas. Mas, a gente aprende com isso, a necessidade de retomar tudo fez com que a gente tivesse mais responsabilidade com tudo isso e voltasse até com uma força maior. Você aprende também com perdas.

Como definiriam Chico Science e o trabalho dele?
Du Peixe: Um cara elétrico pra caramba, se amarrava em viver, acima de tudo, gostava de aproveitar cada momento e vivia maquinando o tempo todo, sempre ativo. Não dá nem para resumir.
Lúcio Maia: Para você virar um mito tem que morrer. Chico era um cara muito simples. As pessoas criaram uma imagem, mas ele era um cara normal...
Du Peixe: ...tomava cerveja, azarava as meninas...
Lúcio Maia: ... só com uma vontade que abriu esse leque, mostrar que pessoas normais fazem coisas legais. Basta querer.

Vocês sempre vão para a Europa. Tem planos para esta turnê? Como foi a experiência?
Lúcio Maia: Nós temos um público muito bom lá. Conseguimos chegar em lugares onde bandas brasileiras ainda não tocaram. Nação Zumbi conseguiu furar este bloqueio.
Du Peixe: A turnê deste novo disco vai rolar, em junho de 2003, e vamos para Europa, Estados Unidos e possivelmente Japão.

Thursday, November 14, 2002

Bem vindos ao blog da FPB

Aqui nós iremos divulgar nossa amada instituição sem fins lucrativos. Você irá acompanhar notícias, críticas, análises, artigos e colunas sobre a cultura pop. Discos, livros, filmes, bandas e todos os assuntos que interessarem aos membros desta fundação e a todos os outros que com ela se identificarem.